A devoção carmelita remonta aos tempos do profeta Elias, no Monte Carmelo, Palestina. A Ordem do Carmo consolidou-se no século XIII com São Simão Stock, que recebeu da Virgem Maria o Escapulário, símbolo de proteção espiritual. A Ordem Terceira, por sua vez, foi reconhecida pelas bulas Cum Nulla (1452) e Dum Attenta (1476), admitindo irmãos seculares e regulares, ambos seguindo regra própria, mas com menor rigidez que os religiosos das Ordens Primeira e Segunda.
No Brasil, a presença carmelita começou provavelmente em Angra dos Reis (1593), com registros documentais em 1627. A Ordem Terceira de Salvador data de 1636, e no Rio de Janeiro foi fundada em 1648, seguida por Campos dos Goytacazes, em 1752. Mesmo sem menção específica à Procissão do Triunfo na Regra, o ritual foi incorporado por diversos sodalícios a partir do século XVIII, como o do Rio de Janeiro.
A procissão encena a Paixão de Cristo com sete andores em ordem bíblica: Horto, Prisão, Flagelação, Coroação, Ecce Homo, Cruz-às-costas e Calvário, culminando com a imagem do Cristo Crucificado. Por isso, é comum que as igrejas dos terceiros carmelitas possuam essas esculturas entronizadas nos seus altares.
A Igreja da Ordem Terceira do Carmo do Rio de Janeiro, iniciada em 1755 pelo português Manuel Alves Setúbal (1720-1782), foi concluída em 1850, após conflitos com a Ordem Primeira e a Câmara. Sua portada de lioz (1761) exibe um tímpano com a cena do Escapulário (Fig. 1). O frontão, com relógio central, revela inspiração lisboeta pombalina. Internamente, a nave única possui sete retábulos, talhados pelo também lusitano Luís da Fonseca Rosa (1700-?) por volta de 1772 e completados pelo fluminense Antônio de Pádua e Castro (1804-1881) já no século XIX, mantendo o estilo Rococó.
Os altares laterais apresentam imagens dos seis passos da Paixão (além do Crucificado no presbitério), esculpidas pelo bracarense Pedro da Cunha (?-?) na década de 1780: Cristo no Horto, da Prisão, da Coluna, Ecce Homo, Coroação e Cruz-às-costas. O retábulo da capela-mor (Fig. 2) é barroco-joanino, com colunas salomônicas e nichos para Santa Emerenciana (Fig. 3) e Santa Teresa d’Ávila (Fig. 4), esta última também de Pedro da Cunha. A imagem do Cristo (1765) é atribuída a Simão da Cunha (?-após 1773).
A capela do noviciado, revestida por Mestre Valentim desde 1773, abriga a imagem de Nossa Senhora do Amor Divino (Fig. 5), ricamente estofada e provavelmente feita em Lisboa. Sua função é proteger os noviços, conforme afirma Nilza Botelho Megale.
Entre as imagens mais relevantes estão:
- a) Santa Emerenciana (altura: 106cm) (Fig. 3): rara iconografia com Emerenciana, Sant’Ana, Maria e o Menino, exclusiva da igreja do Rio de Janeiro;
- b) Santa Teresa d’Ávila (altura: 112cm) (Fig. 4): escultura serena e ricamente detalhada de Pedro da Cunha, destacando o papel da santa como reformadora carmelita;
- c) Nossa Senhora do Amor Divino (altura: 149cm) (Fig. 5): padroeira do noviciado, representada com a pomba do Espírito Santo no peito, em peça barroca de origem lisboeta;
- d) Senhor do Horto (altura: 120cm) (Fig. 6): primeira das imagens da Paixão, com forte carga dramática e atributos de imagem de vestir;
- e) Senhor da Prisão (altura: 160cm) (Fig. 7): expressão de resignação na prisão de Cristo, com entalhe bracarense de Pedro da Cunha, ainda que menos refinado.
A análise iconográfica evidencia a singularidade das igrejas da Ordem Terceira do Carmo na antiga Capitania do Rio de Janeiro, com seu acervo devocional ricamente articulado em torno do mistério da Paixão e das figuras centrais do Carmelo.






