A Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo possui uma história profundamente entrelaçada com o desenvolvimento espiritual e cultural do Rio de Janeiro. Fundada no final do século XVII, a Ordem surgiu como expressão do desejo de leigos em compartilhar da espiritualidade carmelitana, sem, contudo, aderir à vida monástica. Composta por homens e mulheres devotos, a Ordem logo se consolidou como uma força atuante na vida religiosa da cidade, organizando procissões, festas e obras de caridade.
No contexto da expansão urbana e religiosa do século XVIII, os membros da Ordem perceberam a necessidade de erguer um templo próprio, já que realizavam suas atividades na igreja do Convento dos Carmelitas. Em 1755, com o apoio do bispo Dom Frei Antônio do Desterro, foi lançada a pedra fundamental da nova igreja, que logo se tornou palco de disputas com os frades do convento vizinho. Os carmelitas alegavam que a nova construção afetaria a iluminação de seu coro, embargando as obras por cinco anos.
A resolução do impasse veio por meio de um acordo financeiro intermediado pelo Conde de Bobadela. Com o pagamento de uma quantia compensatória, os frades consentiram com a retomada das obras, que avançaram lentamente devido a limitações financeiras. Em um gesto conciliador, a Ordem ainda destinou 8.000 cruzados para a reconstrução do templo dos carmelitas, cuja estrutura se encontrava comprometida. A conclusão da igreja simbolizou a persistência e o espírito de união da Ordem em meio às adversidades.
A inauguração oficial da Igreja da Ordem Terceira ocorreu em 1770, com uma cerimônia solene presidida por Frei Inocêncio do Desterro Barros. A celebração contou com a participação de várias ordens religiosas e atraiu uma multidão de fiéis. Uma procissão memorável levou as imagens sagradas até o novo templo, adornando as ruas do centro do Rio com tapetes, colchas e fogueiras. O evento marcou profundamente a vida religiosa e social da cidade.
A arquitetura da igreja é uma das mais refinadas expressões do barroco e rococó brasileiros. Com projeto inicial de Manuel Alves Setúbal, a edificação recebeu elementos decorativos idealizados por Francisco Xavier Vaz de Carvalho e enriquecidos pelas obras de Mestre Valentim. Entre 1772 e 1800, o renomado artista criou talhas douradas que ainda hoje revestem o altar-mor, os púlpitos e a Capela do Noviciado, considerada uma das mais belas do país.
Os interiores da igreja revelam um esmero artístico ímpar: painéis pictóricos, medalhões no teto abaulado, revestimentos de mármore e uma composição harmônica de luz e cor elevam a experiência espiritual dos visitantes. As talhas de Mestre Valentim, com seus motivos florais e angelicais, representam o auge do refinamento técnico e simbólico da arte sacra colonial, consolidando o templo como um dos principais tesouros da arte religiosa brasileira.
Ao longo dos séculos, a Igreja manteve seu papel como centro de devoção, sendo palco de missas solenes, casamentos, funerais e celebrações religiosas de grande significado para a cidade. Com o tempo, passou também a ser reconhecida como patrimônio cultural e atrativo turístico, recebendo visitantes do Brasil e do mundo interessados em sua história, arte e espiritualidade. Veio a ser inscrita no Livro do Tombo Histórico e de Belas Artes em 1938.
No entanto, a degradação progressiva da estrutura e de sua fiação elétrica, antiga e precária e, concomitantemente, vistoria realizada pelo Instituto Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, e consequente intimação para a realização das obras e intervenções necessárias à reforma geral da Igreja, ensejaram, em fins de 2019, a decisão de fechá-la e evitar riscos maiores aos seus funcionários e fiéis que a frequentavam, especialmente quanto a possibilidade de incêndio, a exemplo do que havia ocorrido recentemente no Museu Nacional, tendo em conta o estado da fiação elétrica.
Em 24 de fevereiro último, ante a situação precária e grave da nossa Igreja, firmamos com o IPHAN um Termo de Compromisso, pelo qual se obrigou esta Ordem a realizar os projetos e obras de restauração no prazo de cinco anos, sendo um para a realização de serviços emergenciais, dois para a elaboração do projeto, contados simultaneamente, e, aprovado esse projeto, três anos para a execução das obras.
Como forma de custear o elevadíssimo custo envolvido em todas essas etapas, absolutamente fora de suas possibilidades financeiras, a Ordem mantém um acordo de cooperação com a empresa ENGECOP, para representa-la junto ao Ministério da Justiça, objetivando autorização para a captação de recursos no âmbito do Pronac, tendo sido já autorizada a captação para os projetos iniciais, porém sem efetiva captação até o momento.
A história da nossa Igreja é, portanto, marcada não apenas pela beleza artística e pela sua importância cultural e espiritual, mas também pelos desafios enfrentados desde a sua fundação, todos superados pelo diálogo, perseverança e compromisso com a preservação desse patrimônio e da memória que representa. E não será diferente agora. Reafirmamos o nosso compromisso nesse sentido, fiéis ao espírito que norteou os fundadores da Instituição, marcado pelo profundo sentimento de fé e religiosidade.
Temos consciência da importância da nossa Igreja, da identidade carioca que ostenta e da herança cultural e religiosa brasileiras que representa, atributos que a fazem singular e que exigem, coletivamente, os melhores esforços no sentido de sua preservação e continuidade.